II. Escolhendo um mestre espiritual


A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada


O que é um guru?

Quando ouvimos a palavra “guru”, temos a tendência a visualizar uma imagem caricaturesca: um velhinho de aparência bizarra, barba longa e vestes esvoaçantes, meditando sobre verdades distantes e esotéricas. Ou então, pensamos em um sábio cósmico trocando por dinheiro a credulidade espiritual de jovens buscadores. Mas o que é realmente um guru? O que ele sabe que nós não sabemos? Como ele nos ilumina? Em palestra dada na Inglaterra em 1973, Srila Prabhupada nos dá algumas respostas esclarecedoras.

“Nasci na mais obscura ignorância, mas meu mestre espiritual abriu os meus olhos com o archote do conhecimento. Ofereço-lhe minhas respeitosas reverências”.

A palavra ajñana quer dizer ignorância, ou escuridão. Se todas as luzes deste aposento se apagassem de repente, não seríamos capazes de dizer onde estamos sentados nem onde as demais pessoas estão sentadas. Tudo ficaria confuso. De modo semelhante, encontramo-nos todos na escuridão nesse mundo material, que é um mundo de tamas. Tamas, ou timira, quer dizer escuridão. Este mundo material é escuro, e por isso necessita da luz do sol ou da lua para se iluminar.

Contudo, existe um outro mundo, um mundo espiritual, que está além desta escuridão.Krishna descreve este mundo no Bhagavad-gita (15.6):

“Esta Minha morada não é iluminada nem pelo sol nem pela lua, tampouco pela eletricidade. Alguém que chegue até ela jamais regressa a este mundo material”.

A missão do guru é trazer seus discípulos da escuridão para a luz. Atualmente todos sofrem por causa da ignorância, da mesma forma que, por ignorância, pessoas contraem doenças. Alguém que não conheça os princípios de higiene não sabe o que poderá contaminá-lo. Assim, devido à ignorância, temos infecções e sofremos de doenças. Pode ser que um criminoso diga: “Eu não tinha conhecimento da lei”, mas por isso ele não será perdoado se cometer um crime. A ignorância

não é uma desculpa. De modo semelhante, uma criança, sem saber que o fogo queima, toca no fogo. O fogo não pensa: “Ela é uma criança e não sabe que eu queimo”. Não, não há desculpa. Assim como o Estado tem as leis, a natureza também tem leis estritas, as quais atuarão mesmo que as ignoremos. Se, por ignorância, fizermos algo errado, teremos de sofrer.

Esta é a lei. Quer seja uma lei do Estado, quer seja uma lei da natureza, corremos o risco de sofrer se as transgredimos.

A missão do guru é cuidar para que nenhum ser humano sofra neste mundo material. Ninguém pode afirmar que não está sofrendo. Isto não é possível. Neste mundo material, há três tipos de sofrimento: adhyatmika, adhibhautika e adhidaivika. São misérias que surgem do corpo material e da mente material, de outras entidades vivas e das forças da natureza. Talvez padeçamos de angústia mental, ou talvez padeçamos por causa de outras entidades vivas — como, por exemplo, formigas, mosquitos ou moscas — ou talvez soframos por causa de algum poder superior. Pode ser que não

chova ou que haja enchente. Podemos sofrer de calor excessivo ou de frio excessivo. A natureza impõe muitos tipos de sofrimento. Assim no mundo material há três tipos de misérias, e todos sofrem com uma, duas ou três dessas misérias. Não há ninguém que possa dizer que está completamente livre de sofrimento. Podemos então perguntar por que a entidade viva está sofrendo. A resposta é: por ignorância. Não pensamos: “Estou cometendo erros e levando uma vida pecaminosa; por isso é que estou sofrendo”. Por conseguinte, o primeiro dever do guru é resgatar seu discípulo dessa ignorância. Mandamos nossos filhos para a escola a fim de poupar-lhes sofrimentos. Se nossos filhos não recebem uma educação, tememos que venham a sofrer no futuro. O guru vê que a causa do sofrimento é a ignorância, a qual é comparada à escuridão. Como é que se pode salvar uma pessoa na escuridão? Com a luz. O guru toma o archote do conhecimento e o apresenta perante a entidade viva envolta na escuridão. Este conhecimento a alivia dos sofrimentos da obscura ignorância.

Pode alguém perguntar se o guru é absolutamente necessário. Os Vedas mandam que busquemos um guru; na realidade, eles dizem que busquemos o guru não apenas um guru. Só há um guru porque este chega até nós por intermédio da sucessão discipular. O que Vyasadeva e Krishna ensinaram há 5.000 anos atrás também está sendo ensinado agora. Não há diferença entre as duas instruções. Apesar de centenas de milhares de Achryas terem ido e vindo, a mensagem é a mesma. O guru verdadeiro não pode ser dois, porque o guru verdadeiro não fala de modo diferente que seus predecessores. Alguns mestres espirituais dizem: “Na minha opinião, você deve fazer isto”. Mas isto não é um guru. Esses pseudo-gurus não passam de meros patifes. O guru genuíno tem apenas uma opinião, que é a opinião expressa por Krishna, Vyasadeva, Narada, Arjuna,... Caitanya Mahaprabhu e os Gosvamis. Há cinco mil anos o Senhor ®r... Krishna falou o Bhagavad-gita, o qual foi registrado por Vyasadeva. ...la Vyasadeva não disse: “Esta é minha opinião”. Pelo contrário, ele escreveu: Sri... Bhagavan uvaca, isto é: “a Suprema Personalidade de Deus diz”. Tudo que Vyasadeva escreveu foi proferido originalmente pela Suprema Personalidade de Deus....la Vyasadeva não deu sua opinião própria.

Conseqüentemente, ..la Vyasadeva é um guru. Ele não interpreta mal as palavras de K Ša, senão que as transmite exatamente como foram proferidas. Quando mandamos um telegrama, a pessoa que passa o telegrama não tem de corrigi-lo, redatá-lO nem adicionar nada a ele. Ela simplesmente o transmite. Esta é a função do guru. Pode ser que o guru seja esta pessoa ou aquela, mas a mensagem é a mesma; é por isso que se diz que só há um guru.

Na sucessão discipular encontramos uma simples repetição do mesmo assunto. No Bhagavad-gita (9.34)Krishna diz:

“Ocupa sempre tua mente em pensar em Mim, torna-te Meu devoto, oferece-Me reverências e adora-Me. Se te absorveres completamente em Mim, não há dúvida de que virás a Mim”. Estas mesmas instruções foram reiteradas por todo os Acharyas — Ramanuja Acharya, Madhva Acharya e Caitanya Mahaprabhu. Os seis Gosvamis também transmitiram a mesma mensagem, sendo que nós simplesmente seguimos-lhes os passos. Não há diferença. Não interpretamos as palavras de

Krishna, dizendo: “Na minha opinião, o Campo de Batalha de Kuruksetra representa o corpo humano”. Quem dá interpretações como essa são os patifes. Há muitos gurus patifes no mundo que dão sua própria opinião, mas nós podemos desafiar qualquer patife. Um guru patife pode dizer: “Eu sou Deus”, ou então: “Todos nós somos Deus”.

Muito bem, mas devemos procurar no dicionário o que quer dizer a palavra “Deus”. De modo geral um dicionário nos dirá que a palavra “Deus” indica o Ser Supremo. Assim, podemos perguntar a um desses gurus: “Você é o Ser Supremo?” Se ele não conseguir compreender isto, devemos então dizer-lhe o que significa Supremo. Qualquer dicionário há de nos informar que Supremo quer dizer “autoridade máxima”. Poderemos então perguntar: “Você é a autoridade máxima?” Um guru patife desse tipo, mesmo que proclame ser Deus, não poderá responder a essa pergunta. Deus é o Ser Supremo e a autoridade máxima. Ninguém é igual a Ele nem superior a Ele. Contudo, há muitos

gurus-deuses, muitos patifes que alegam ser o Supremo. Tais patifes não podem nos ajudar a escapar da escuridão da existência material. Eles não podem iluminar nossa escuridão com o archote do conhecimento espiritual.

O guru autêntico vai simplesmente apresentar o que o guru supremo, Deus, diz na escritura autêntica. Um guru não pode alterar a mensagem da sucessão discipular.

Temos que compreender que não somos capazes de fazer investigações para encontrar a Verdade Absoluta. O próprio Caitanya Mahaprabhu dizia: “Meu Guru Maharaja considerava-Me um grande tolo”. Uma pessoa que se mantém como um grande tolo perante seu guru é ela mesma um guru. Entretanto, uma pessoa que diga: “Eu sou tão avançado que posso falar melhor que meu guru” não passa de um patife. No Bhagavad-gita (4.2), Krishna diz: “Esta ciência suprema foi assim recebida através da corrente de sucessão discipular, e os reis santos compreenderam-na dessa maneira. Porém, com o decorrer do tempo rompeu-se a sucessão, e por isso parece que a ciência como ela é está perdida”.

Aceitar um guru não é simplesmente uma coisa da moda. Uma pessoa que esteja levando a sério a compreensão da vida espiritual necessita de um guru. Um guru é uma questão de necessidade, pois temos de ser muito sérios para compreender a vida espiritual, Deus, a ação correta e nossa relação com Deus. Se queremos compreender esses assuntos com muita seriedade, precisamos de um guru. Não devemos nos dirigir a um guru só porque este guru é o guru da moda no momento. É preciso haver rendição, já que sem rendição não podemos aprender nada. Se nos dirigirmos a um guru apenas para desafiá-lo, não aprenderemos nada. Mas temos de aceitar o guru assim como Arjuna

aceitou o seu guru, o próprio Krishna: “Agora estou confuso com relação a minha obrigação e perdi toda a compostura por causa da fraqueza. Nesta condição peço-Vos que me digas claramente o que é melhor para mim. Agora sou Vosso discípulo e uma alma rendida a Vós. Por favor, instruí-me” (Bg. 2.7). Este é o processo mediante o qual aceitamos um guru. O guru é o representante de Krishna, o representante dos Acharyas anteriores. Krishna diz que todos os Acharyas são Seus representantes; por isso, deve-se oferecer ao guru o mesmo respeito que se oferece a Deus. Como diz Vi van€tha Cakravarti.. Thakura em suas orações ao mestre espiritual:

yasya prasadad bhagavat-prasadad. “Pela misericórdia do mestre espiritual, recebemos a bênção de Krishna”. Assim, se nos entregamos ao guru autêntico, nos entregamos a Deus. Deus aceita nossa rendição ao guru. No Bhagavad-gita (18.66), Krishna instrui: “Abandona todas as variedades de religião e simplesmente rende-te a Mim. Hei de salvar-te de toda reação pecaminosa. Não temas”. Pode ser que alguém argumente: “Mostre-me K Ša que eu me renderei a Ele”.

Mas não é assim; o processo é que primeiro nos rendemos ao representante de K Ša, para então nos rendermos a Krishna. Por isso se diz: saksad-dharitvena samasta- sastrair: o guru é como Deus. Quando oferecemos respeitos ao guru, estamos oferecendo respeitos a Deus. Como estamos tentando ser conscientes de Deus, é necessário que aprendamos a como oferecer respeitos a Deus através do representante de Deus. Em todos os Sastras se descreve que o guru é como Deus, mas o guru jamais diz: “Eu sou Deus”. O discípulo tem a obrigação de oferecer respeitos ao guru da

mesma forma que oferece respeitos a Deus, mas o guru jamais pensa: “Os meus discípulos estão me oferecendo o mesmo respeito que oferecem a Deus; portanto, tornei-me Deus”. Logo que pensa assim, ele se torna um cachorro em vez de Deus. Por isso, Visvanatha Cakravarti Thakura diz: kintu prabhor yah priya eva tasya. Como o guru é o servo mais confidencial de Deus, oferece-se-lhe o mesmo respeito que se oferece a Deus. Deus é sempre Deus, e o guru é sempre o guru. Por uma questão de etiqueta. Deus é o Deus adorável, e o guru é o Deus adorador (sevaka-bhagavan).

Por isso, o guru é chamado de prabhupada. A palavra prabhu quer dizer “senhor’, e p€da quer dizer “posição”. Assim, prabhupada quer dizer: “aquele que aceita a posição do Senhor”. Isto é o mesmo que saksad-dharitvena samasta- sastrair.

Mas só precisamos de um guru se levarmos muito a sério a vontade de compreender a ciência de Deus. Não devemos tentar manter um guru por uma questão de moda. Uma pessoa que tenha aceitado um guru fala com inteligência. Ela jamais fala disparates. Este é o sinal que distingue uma pessoa que aceitou um guru autêntico. Por certo que devemos oferecer todos respeitos ao mestre espiritual, mas devemos também nos lembrar de como levar a cabo as suas ordens. No Bhagavad-gita (4.34) o próprio Krishna nos diz qual é o método de buscar o guru e aproximar-se dele: “Procura aprender a verdade aproximando-te de um mestre espiritual. Indaga dele submissamente

e presta-lhe serviço. A alma auto-realizada poderá transmitir-te conhecimento porque vê a verdade,” O primeiro processo é o processo da rendição. Temos que encontrar uma pessoa elevada e nos render voluntariamente a essa pessoa. Os sastras mandam que, antes que aceitemos um guru, o examinemos cuidadosamente para ver se podemos nos render a ele. Não devemos aceitar um guru de repente, por fanatismo. Isso é muito perigoso. O guru também deve examinar a pessoa que quer tornar-se seu discípulo para ver se esta pessoa é idônea. É assim que se estabelece a relação entre o guru e o discípulo. Tudo é providenciado. Mas devemos aceitar o processo com seriedade. Depois

disso podemos ser treinados de modo a nos tornar discípulos autênticos. Em primeiro lugar, temos de encontrar um guru autêntico, estabelecer nossa relação com ele e proceder adequadamente. Então, alcançaremos o êxito em nossa vida, pois o guru pode iluminar o discípulo sincero que está na escuridão. Todos nascem patifes e tolos. Se nascêssemos eruditos, por que precisaríamos ir à escola? Se não cultivamos conhecimento, não passamos de animais. Um animal pode dizer que não necessita de livros e que se tornou um guru, mas como pode alguém obter conhecimento sem estudar os livros autorizados sobre ciência e filosofia? Os gurus patifes tentam evitar estas coisas. Temos de compreender que todos nós nascemos patifes e tolos e que temos de ser esclarecidos. Temos de receber conhecimento para aperfeiçoar nossas vidas. Se não aperfeiçoarmos nossas vidas,

malograremos. Qual é este malogro? A luta pela vida. Estamos tentando conseguir uma vida melhor, alcançar uma posição superior, e para isto lutamos duramente. Porém, não sabemos o que é realmente uma posição superior.

Teremos de abandonar qualquer posição que obtenhamos neste mundo material. Pode ser que obtenhamos uma boa posição ou uma posição ruim; de qualquer modo, não podemos permanecer aqui. Pode ser que ganhemos milhões em dinheiro e pensemos: “Agora tenho uma boa posição”, mas uma pequena desenteria ou cólera-morbo acabará com a nossa posição. Se o banco vai à falência, nossa posição vai por água abaixo. Assim, na realidade não há posição boa neste mundo material. É tudo uma farsa. Aqueles que tentam alcançar uma posição melhor no mundo

material são por fim derrotados porque não existe posição melhor. O Bhagavad-gita (14.26) diz qual é a posição melhor: “Aquele que se dedica completamente ao serviço devocional, que não cai em nenhuma circunstância, transcende de imediato os modos da natureza material e deste modo chega ao nível de Brahman”. Há alguma ciência que nos dê o conhecimento pelo qual possamos nos tornar imortais? Sim, podemos nos tornar imortais, mas não no sentido material. Este conhecimento não pode ser recebido em pseudo-universidades. Entretanto, as escrituras védicas contêm um conhecimento através do qual podemos nos tornar imortais. Essa imortalidade é a nossa melhor posição. Não ter mais de nascer, não ter mais de morrer, não ter mais de envelhecer, não

ter mais de adoecer. De modo que o guru aceita uma responsabilidade muito grande. Ele deve orientar seu discípulo e capacitá-lo a tornar-se um candidato elegível para a posição perfeita: a imortalidade. O guru tem de ter a competência para conduzir seu discípulo de volta a casa, de volta ao Supremo. Muito obrigado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

ISKCON Pandemônio

El Mono Empalado 11